A estreita relação da sabedoria de Deus — ou da falta dela — com os nossos dramas existenciais

Por: A.L. Cabral

 

Tiago 1.2-18


2 Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, 3 pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. 4 E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma. 5 Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida. 6 Peça-a, porém, com fé, sem duvidar, pois aquele que duvida é semelhante à onda do mar, levada e agitada pelo vento. 7 Não pense tal pessoa que receberá coisa alguma do Senhor, 8 pois tem mente dividida e é instável em tudo o que faz.

9 O irmão de condição humilde deve orgulhar-se quando estiver em elevada posição. 10 E o rico deve orgulhar-se caso passe a viver em condição humilde, porque o rico passará como a flor do campo. 11 Pois o sol se levanta, traz o calor e seca a planta; cai então a sua flor, e a sua beleza é destruída. Da mesma forma o rico murchará em meio aos seus afazeres.

12 Feliz é o homem que persevera na provação, porque depois de aprovado receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam.

13 Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. 14 Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. 15 Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte.

16 Meus amados irmãos, não se deixem enganar. 17 Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. 18 Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade, a fim de sermos como que os primeiros frutos de tudo o que ele criou.

 

Breve contexto

Estevão havia sido apedrejado e morto.

Uma grande perseguição desencadeou-se contra a igreja em Jerusalém (Saulo devastava a igreja). Na dispersão, Filipe desenvolveu inicialmente o seu ministério junto aos samaritanos. A despeito das circunstâncias contrárias, a igreja em Jerusalém cresceu sob o ministério de Pedro. Outros discípulos foram para Fenícia, Chipre e Antioquia na dispersão, onde pregaram a Palavra apenas aos judeus. Paulo se converteu por volta do ano 37, cresceu na graça a caminho da Arábia e de Damasco, antes de ir para Jerusalém. Discípulos cipriotas e cireneus — na Bíblia, anônimos — pregaram a Palavra aos gregos em Antioquia, onde Deus por meio deles agiu poderosamente. Esta notícia chegou à Jerusalém, quando Barnabé foi enviado à Antioquia, que, vendo a graça de Deus, ficou alegre e serviu para o acréscimo de muitas pessoas ao Senhor. Então foi a Tarso onde chamou a Paulo. Ambos ficaram com os irmãos e ensinaram a Palavra por um período de um ano. Os discípulos foram, pela primeira vez, chamados de cristãos. Profetas foram de Jerusalém à Antioquia, onde Ágabo profetizou a respeito da fome sobre o mundo romano. Os discípulos de Antioquia prepararam uma oferta, que foi levada por Barnabé e Paulo de regresso à Jerusalém, para suprir as necessidades dos irmãos na Judeia, que viviam sob o regime romano. Sob o reinado de Herodes, por volta de 44 d.C., foram presos e maltratados alguns que pertenciam à igreja, sendo, Tiago, irmão de João, morto à espada sob suas ordens e o apóstolo Pedro preso na sequência. Foi neste contexto de muitas necessidades, perseguições, maus-tratos e execuções que os discípulos judeus, que foram dispersos da Judeia pela perseguição desencadeada contra a igreja, após a morte de Estevão, receberam a carta do apóstolo Tiago, irmão do Senhor Jesus.

Tiago escreveu aos irmãos sobre a necessidade de a igreja considerar como motivo de grande alegria o fato de passar por diversas provações, sobre a demonstração da verdadeira fé pela prática de boas obras, sobre males que prejudicam a fé cristã, e, termina dizendo que Deus condena as riquezas mal adquiridas e mal empregadas, deixando, também, instruções sobre a proibição de juramentos e sobre o procedimento cristão em várias experiências da vida. O pano de fundo da carta do apóstolo Tiago, então, são os registros históricos de Atos dos Apóstolos, principalmente, do capítulo 7 até o capítulo 12, cuja leitura é altamente recomendada, em complemento ao presente artigo, que se limita em tratar sobre passarmos, sobretudo, por diversas provações, com grande alegria, que é fruto da sabedoria de Deus e outras graças decorrentes.

 

A sabedoria e a sua relação com as provações

É necessário sabedoria para entendermos que maturidade e integridade vem como fruto da perseverança e que a perseverança é produzida quando a nossa fé é provada; quando passamos por diversas provações. A sabedoria necessária para enxergarmos a realidade de modo agradável a Deus, vem do próprio Deus. Devemos pedi-la, com fé, em oração; ela não pode ser comprada. Deus a dá livremente, de boa vontade e por pura graça, aos seus filhos que lhe pedem. Sem maturidade e integridade, sobretudo, diante das grandes provações, não é possível sermos testemunhas do nosso Senhor Jesus Cristo, que é a razão de existir de cada cristão. Tiago sabia bem disso, pois estava com os demais apóstolos e discípulos quando Cristo lhes falou a respeito no primeiro capítulo de Atos dos Apóstolos. Por isso, ele não hesita em dizer que Deus da sabedoria a todos os seus filhos que lhe pedem com fé, sem duvidar. As provações, normalmente, desestabilizam as pessoas. Mas, o Senhor quer que, como seus filhos, sejamos maduros e íntegros, sábios e perseverantes, diante de quaisquer provações; aliás, são as provações que nos tornam em fiéis testemunhas do nosso Senhor Jesus Cristo e que mostram o quanto sua graça e bondade operam em nosso favor. Cristo é a sabedoria de Deus. Deus quer ver a vida de Cristo em cada um dos seus filhos. Por isso, deseja que consideremos como um motivo de grande alegria o fato de passarmos por muitas provações.

Cristo, a sabedoria de Deus, nos dá condições de passarmos por altos e baixos de modo comedido, equilibrado e temente a Deus. O nosso orgulho, que deve estar em Deus, deve estar presente na humilde ou na elevada posição. O irmão de condição humilde precisa saber que, se elevado em posição, deve manter o seu coração em Deus, ser generoso para com o próximo e saber que de tal posição pode decair. O irmão rico deve manter o seu coração em Deus, ser generoso para com o próximo e precisa saber que, se rebaixado em posição, deve continuar a orgulhar-se em Deus, sabendo que a condição na riqueza é deveras passageira e difícil — mas não impossível — para os homens cultivarem a verdadeira piedade e devoção. O nosso orgulho deve estar em Deus, independentes das circunstâncias e posições. Se nos gloriarmos em qualquer coisa, devemos nos gloriar no Senhor; no seu amor, na sua graça, na sua bondade para conosco demonstrada ao logo da jornada e nas suas promessas.

Como consta no versículo 4, “a perseverança deve ter ação completa”. Isto significa aceitar as provações e nelas permanecer, até sermos aprovados quando Cristo voltar. Significa saber que, além de sermos aperfeiçoados na trajetória, alcançaremos as promessas do Pai e seremos coroados com a vida eterna que, hoje se desenvolve, mas que quando Cristo voltar, será estabelecida para sempre; por toda a eternidade. É importante notar que “Feliz é o homem que persevera na provação”, porque, pela fé, ele sabe que “receberá a coroa da vida”. A fé em Deus e no Senhor Jesus Cristo é a base da verdadeira felicidade; da felicidade por vezes atingida, mas que é indestrutível porque é fruto da Palavra de Deus e do agir do Espírito Santo na vida do crente. A felicidade que o crente tem não é baseada materialmente, mas no próprio ser do Deus-Trino e na certeza inabalável a propósito do cumprimento de todas as suas promessas para com aqueles que lhe obedecem (amam).

 

A sabedoria e a sua relação com as tentações

Ser provado é uma coisa totalmente diferente de ser tentado. É sinal incontestável de falta de sabedoria não saber a diferença. A primeira coisa a ser considerada é que todo ser humano tem maus desejos. A nossa natureza é caída. Sem a Palavra de Deus, nos corrompemos. Como diz a Escritura, o povo se corrompe quando não observa a Palavra de Deus e é destruído por falta de conhecimento sobre o Senhor. O salmista nos diz: “Guardei no meu coração a tua palavra para não pecar contra ti.” (Salmos 119.11). Os homens são naturalmente caídos, mas pelo amor e pela misericórdia de Deus, pela graça e pela fé em Jesus Cristo e pela poderosa ação do Espírito Santo em sua existência, as vidas dos homens são transformadas, no normal, silenciosa e paulatinamente. São os maus desejos que tentam, arrastam e seduzem os homens. Noutras palavras, se há tentação, se há um impulso "incontrolável" (ainda que velado), se há sedução, há maus desejos. Pela Palavra de Deus e pelo poder do Espírito Santo, isto precisa ser dominado; no contrário, é um caminho em direção à morte. Quem concebe maus desejos pode dar luz ao pecado. O embrião do pecado chama-se maus desejos. A gestação de maus desejos é a gestação da morte. Qual foi a palavra do Senhor para Caim? Fazendo a comparação como uma fera que ronda à porta, o Senhor Deus lhe disse, quando ainda nutria, no coração, maus sentimentos e o desejo de matar Abel, seu irmão: “saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo” (Gênesis 4.7). É correto dizer que talvez não seja possível impedirmos que passarinhos pousem sobre as nossas cabeças, mas, com toda certeza, é possível impedi-los de fazer os seus ninhos. Na busca por respostas aos dramas da nossa existência, primeiramente, precisamos nos examinar com sinceridade e saber se a origem dos nossos dramas está nas provações ou nas tentações. Em ambos os casos, para que o nome do nosso Pai seja glorificado, a resposta, para que seja sábia, deverá vir do alto; da sua Palavra, não podendo ser terrena e secularizada.

Os nossos maus desejos nos enganam. Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem de Deus, do Pai das luzes, não do nosso coração ou do mundo, que são caídos.  O “não se deixem enganar” faz ligação com a maturidade do versículo 4. “Toda boa dádiva e todo dom perfeito” liga com: alegria; perseverança; maturidade; integridade; sabedoria para lidar com provações; coesão de nossos pensamentos e sentimentos; estabilidade moral e operacional; felicidade; e, sabedoria para lidar com tentações. Não é difícil saber se somos provados ou tentados. Aquele que é provado, ouve inicialmente a voz de Deus e responde à provação para glória de Deus ou desobedece. Aquele que é tentado, ouve inicialmente a voz do seu próprio coração e responde à tentação para sua própria glória ou desobedece. Desobedecer neste último caso, significa refrigério e vida; ao passo que naquele, significa disciplina ou morte. As tentações podem surgir em circunstâncias de provações. O Diabo e a nossa condição caída (original) são o pano de fundo nas tentações. Por nascimento natural, de acordo com a Palavra de Deus, estávamos em trevas, mortos espiritualmente em nossos pecados. Pela decisão de Deus — de Deus; não da nossa —, fomos gerados pela palavra da verdade (o próprio Cristo/o santo evangelho), que nos transformou em filhos da luz; em luzeiros do mundo como eram os nossos primeiros pais antes da queda (um dos primeiros frutos na criação). Nossos primeiros pais, Adão e Eva, deixaram-se enganar e caíram em trevas exteriores ao paraíso. Nós, porém, que somos nova criação em Cristo Jesus, temos a sabedoria de Deus, a mente de Cristo. Fomos resgatados do império de trevas exteriores, para vivermos no Reino daquele que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz. A Serpente enganou os nossos primeiros pais, oferecendo-lhes dádivas e dons por meio de uma interpretação sombria da Palavra de Deus. Contudo, Deus não mudou e nos exorta à obediência, tal como o fez com os nossos primeiros pais. Influenciado pela Serpente, o primeiro Adão concebeu um mau desejo em seu coração que o levou ao pecado e à morte e, com ele, toda humanidade. Tentado pela Serpente, não no paraíso, mas no deserto, e vendo o poder que cintilava na interpretação terrificada da Palavra, Cristo, o segundo Adão, não se deixou enganar e nos conferiu a graça de sermos, nele, e somente pela fé nele, conhecidos por Deus como filhos da obediência e coerdeiros das suas gloriosas promessas. Como filhos da obediência, somos fortalecidos para que não nos enganemos e saibamos que nada de bom procede dos maus desejos e das sutilezas da Serpente que cintilam nas coisas terrenas e na falsa religião, mas que vem de cima, descendo, pela graça, da parte do nosso Deus, do lugar alto para o qual o nosso Senhor foi levado para ser crucificado. A cruz de Cristo é o lugar alto no qual todo engano é destruído e do qual temos a garantia de perdão dos pecados, de toda boa dádiva, de todo dom perfeito, e, da inabalável esperança de salvação e vida eterna.

 

A relação da sabedoria com as provações e tentações

Pela força da Palavra de Deus, o Espírito nos chama à sabedoria de Deus, ao próprio Cristo, pois sem ela, sem Cristo, não somos páreos diante de tantas provações e tentações. Sem a sabedoria do Senhor, não temos o discernimento para conhecer as origens das nossas tribulações, revelamos ausência de perseverança, imaturidade, falta de integridade, instabilidade, mentalidade dúbia e enfraquecida, incapacidade para ver o mal e o bem invisíveis, não vemos os movimentos do Diabo, não vemos o agir do Espírito, não assumimos responsabilidades pelos nossos pecados, maus desejos e inclinações hostis à santidade de Deus, e, ainda somos capazes de culpar a Deus por certas causas e consequências, revelando, assim, o ápice da nossa falta de entendimento, sabedoria e ignorância.

 

Concluindo

Provações e tentações são inevitáveis. Por um lado, Deus nos prova e exige obediência; por outro lado, o vil tentador, o Diabo, juntamente com a condição caída do homem, são o pano de fundo das tentações. Com a sabedoria de Deus, o próprio Cristo, temos: alegria; perseverança; maturidade; integridade; sabedoria para lidar com provações e variações; coesão de nossos pensamentos e sentimentos; estabilidade moral e operacional; felicidade; sabedoria para lidar com tentações; e, o recebimento da coroa da vida no final. O Senhor Deus é o Pai das luzes. Ele não muda e nem sofre variações. Se tivermos a sabedoria que procede dele, se estivermos em Cristo (mortos para o mundo), e Cristo viver em nós (vivos para Deus), a despeito das tribulações e revezes, aprenderemos, confiando no Pai, como ser menos atingidos pelas intempéries, ao passo em que somos transformados em pessoas verdadeiramente perseverantes, que se alegram nas provações, maduras, íntegras, estáveis, cheias de esperança e com mentalidade coesa e dedicada à glória de Deus e do seu Filho Jesus Cristo.

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