A prática da Palavra orientada pela Palavra: reflexões sobre a observância da Palavra de Deus

Por: A.L. Cabral

 

Tiago 1:19-27


19 Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, 20 pois a ira do homem não produz a justiça de Deus. 21 Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.

22 Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. 23 Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho 24 e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. 25 Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer.

26 Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum! 27 A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.

 

Se cremos, e cremos, que a Escritura é inspirada por Deus e que ela é inerrante, devemos tê-la no mais elevado grau de consideração, porque, entre outras coisas, é a Palavra de Deus que nos apresenta o padrão divino para o desenvolvimento da nossa fé e prática.

Neste artigo, veremos: a ira do homem não produz a justiça de Deus; a Palavra de Deus deve ser observada com atenção e praticada com perseverança; e, a religião aceitável a Deus consiste em ter controle sobre as palavras, cuidar das pessoas desamparadas e não se deixar corromper pelo mundo.

Vale ressaltar que, conforme mencionei em meu artigo anterior (A estreita relação da sabedoria de Deus — ou da falta dela — com os nossos dramas existenciais), foi num contexto de muitas necessidades, perseguições, maus-tratos e execuções que os discípulos judeus no primeiro século, que foram dispersos da Judeia pela perseguição desencadeada contra a igreja, após a morte de Estevão, receberam esta importante carta de encorajamento da parte do apóstolo Tiago, irmão do Senhor Jesus, que é a Palavra, o Verbo, que nos inspira e exorta a propósito da vida que glorifica a Deus.

Para aqueles que tem fé, o que a Palavra de Deus disse para os homens no passado, ela diz para os homens hoje. Deus não mudou, assim como o homem em sua natureza também não mudou. Talvez, tecnologicamente muitas coisas mudaram, mas os homens com os seus dramas, pecados e medos, em nada mudaram e continuam sendo carentes ao extremo da Palavra de Deus e do Cristo Salvador; mesmo que não se deem conta desta realidade.

 

A ira do homem não produz a justiça de Deus

É comum, diante das injustiças de todas as ordens, os homens se acharem indignados perplexos e irados. Ter sede de justiça é uma bem-aventurança. Mas, esta sede deve desdobrar-se em piedade (vida pia), não em ativismo político e social desprovido do peso da Palavra de Deus. No versículo 19, Tiago, afetuosamente, se dirige aos irmãos que foram dispersos na perseguição nos seguintes termos: “Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se”. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias, e a dos judeu-cristãos naquele tempo eram de fato bem difíceis, existem coisas sobre as quais não podemos nos esquecer: (1) prontidão para ouvir; (2) domínio da fala (língua); (3) domínio do temperamento. A justiça de Deus não se manifesta quando, cheios de nós mesmos, não medimos as palavras e agimos de modo destemperado, “pois a ira do homem não produz a justiça de Deus.” (v.20). Irar-se ao ponto de falar demais e deixar de ouvir a Palavra, significa falta de fé e confiança em Deus; e tudo aquilo que não provém da fé, segundo a Palavra, é pecado. A ira do homem não produz a justiça de Deus. A ira de Deus, que coexiste com o seu eterno amor, é o que produz justiça para os homens. Justiça revelada no evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. É comum querer ver a justiça de Deus sendo feita, mas não devemos nos esquecer da Palavra do Senhor para Zorobabel: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos." (Zacarias 4.6). A própria justiça social que os homens tanto desejam será em sua perfeição uma obra realizada pelo próprio Deus, quando o Senhor Jesus Cristo voltar para exercer o justo juízo sobre a terra e nos conduzir à Jerusalém Celestial onde habita a justiça. A nossa sede de justiça deve ser aperfeiçoada pela Palavra, devendo servir para o aumento da nossa fé em Deus e da confiança de que o Senhor sempre agiu, age e agirá em favor do seu povo, segundo as suas promessas; o que inclui nos fazer viver em estado de perfeita e eterna justiça e glória.

O santo apóstolo, objetivando realçar tudo o que deixou escrito, segue em frente dizendo: “Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.” (v.21). É o que sobra em termos de impureza e de maldade, juntamente com a falta da Palavra, que leva o homem à ira e ao descontrole. Sendo a santa Palavra implantada em nós — o que acontece pela pregação do evangelho, pela graça de Deus e pela fé —, não devemos ser resistentes ao seu desabrochar, até que nos governe totalmente. Devemos aceitá-la com humildade para que o seu poder opere em nós, nos livrando de excessos, do mal testemunho, da própria impureza e da maldade.

A Palavra de Deus é o próprio Cristo. É olhando para Cristo que encontro o exemplo de humildade. É olhando para ele que o meu coração é quebrantado e a aceitação por sua vida cresce em mim. É olhando para ele e vivendo nele, que a Palavra implantada pelo Espírito Santo cresce e se revela poderosa para minha salvação em todos os sentidos. Somente em Cristo temos a libertação da impureza moral e somos protegidos da maldade que prevalece.

 

A Palavra de Deus deve ser observada com atenção e praticada com perseverança

Quando eu apenas ouço a Palavra, mas não a pratico, não estou fazendo outra coisa senão me enganando. É o erro do autoengano. No versículo 22, Tiago nos exorta solenemente: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos.”. Na sequência, nos deixa o interessante exemplo do espelho. Ele diz nos versículos 23 e 24: “Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência.”. Embora utilizemos espelhos várias vezes ao dia, mesmo os mais vaidosos e preocupados com o corpo, logo lhe dão as costas. Usamos os espelhos e para eles viramos as costas. Todas as vezes que nos aproximamos, o espelho nos mostra como somos e estamos fisicamente, mas, sempre e sempre para o espelho damos as costas. Dependendo da imagem no espelho, podemos até projetar possíveis problemas internos. Mas, com tudo isso, não vai passar muito tempo para lhe darmos as costas. É exatamente isto o que não pode acontecer conosco em relação à Palavra de Deus. A Palavra de Deus é o espelho perfeito e, ao contrário do espelho literal, não podemos virar as costas para a Palavra de Deus. Ela deve estar sempre à nossa frente; somente assim podemos observá-la atentamente e praticá-la conforme o Espírito requer. Depois de dizer o que não devemos fazer, Tiago, agora, no versículo 25, deixa clara a necessidade de especial atenção teológica e prática a respeito da Palavra. Com outras palavras, Tiago disse que sem profecia (Palavra) o povo se corrompe. Ele nos deixou: “Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer.”. A Palavra de Deus não pode ser esquecida (posta de lado) em nenhum momento das nossas vidas. Olhares mundanos e mal treinados podem contribuir com a falsa ideia de que Bíblia tira a liberdade daqueles que nela confiam. Mas, o ponto é exatamente o oposto. A Palavra de Deus é perfeita e traz a liberdade; desde que nela perseveremos. Cristo é a Palavra de Deus. Ele é a perfeição. Nele há a perfeita liberdade. Somente em Cristo somos felizes naquilo que fazemos; pois, com todas as nossas limitações, em todos os nossos movimentos, buscamos fazer sempre e somente aquilo que lhe agrada. Perseverar na prática da Palavra é outro “nome” que é dado para viver em Cristo, estar morto para o pecado, morto para o mundo e vivo para Deus em santidade e novidade de vida.

A vida do homem exige movimento; exige ação, decisão. E Deus exige que os seus filhos ajam no mundo, tendo a sua Palavra sempre à frente. Perseverar na prática da Palavra significa exatamente, e em todos os nossos movimentos, jamais virar-lhe as costas, deixando de observá-la e permitindo que ela não nos governe. É somente quando as nossas mentes são levadas cativas à Palavra de Deus que podemos experimentar o seu poder libertador. Quanto mais cativa é a mente do homem à Palavra de Deus, mais a mente do homem é liberta de tudo aquilo que o prende longe do seu Criador.


A religião aceitável a Deus, consiste em ter controle sobre as palavras, cuidar das pessoas desamparadas e não se deixar corromper pelo mundo

“Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (v.26). Como poderia o apóstolo ser mais direto? Por duas vezes nesta passagem, Tiago fala do autoengano. A primeira, como vimos no versículo 22, e a segunda, aqui, no versículo 26, dizendo que nos enganamos quando tão somente ouvimos a Palavra, mas não a praticamos. Se enganam aqueles que não tem controle sobre as palavras e se consideram religiosos. Tiago é enfático ao ponto de deixar claro que a religião de quem fala demais não tem valor algum. Não tem valor algum! Não podemos nos enganar. Precisamos manter a Palavra sempre à frente, ser sensíveis ao Espírito e controlarmos os impulsos da língua. Em outras palavras, o santo apóstolo nos ensina que devemos falar menos e trabalhar mais, no sentido das necessidades daqueles que mais precisam. Trata-se de ter e desenvolver, como diria Jonathan Edwards, afeições religiosas que agradam a Deus, porque, como deixou registrado no versículo 27, “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades...”. Além de cuidadosos com as palavras, os praticantes da religião aceitável a Deus preocupam-se com os órfãos e as viúvas; no contexto aqui, com os mais desamparados.

Para ficar claro que a igreja não pode deixar de ser igreja e se transformar numa espécie de ONG, devemos considerar, como consta no texto, o quanto o apóstolo discorreu detidamente a propósito de ouvir e viver a Palavra. A Palavra de Deus deve ser central na vida dos fiéis e na vida da própria congregação. A pregação do santo evangelho, em todas as suas nuances, e o chamado para ser testemunha de Cristo na terra, é a razão de existir da igreja. Se enfraquecermos a pregação e o testemunho, nos envolveremos demasiadamente na ceara de outras agências e deixaremos de ser igreja; o que infelizmente está acontecendo pelo mundo há muito tempo. Os órfãos e as viúvas, entre os irmãos, passaram a ser atendidos em suas dificuldades pela igreja de Jerusalém, que era prioritariamente voltada à oração e ao ministério da Palavra. Enquanto o ministério da Palavra prosperava, paralelamente as dificuldades dos mais desemparados iam sendo supridas. Hoje, localmente, talvez não tenhamos tantos órfãos e viúvas em nossas igrejas, mas certamente temos os mais desamparados que precisam de atenção. Creio que, desde que o zelo da igreja esteja prioritariamente na oração e no ministério da Palavra, e, desde que os mais desamparados estejam sendo devidamente assistidos, é uma boa obra de caridade a dedicação aos orfanatos e asilos, sobretudo, cristãos, e começando pelos mais próximos dos locais onde as igrejas cristãs estão plantadas. A igreja não é uma ONG. Os seus membros devem ter no mais alto grau de importância a pregação da santa Palavra. Deus deseja falar ao seu povo por meio do ministério verbal e a igreja deve ter o discernimento para não ceder às pressões da modernidade que tanto tem enfraquecido o ministério da Palavra. O mundo vive o padrão das mensagens instantâneas, curtas e visuais. Prevalece o padrão do debate, da mesa redonda, entrevistas sem tempo para responder com profundidade, da crítica com fim em si mesma (crítica pela crítica como demonstração de aparente intelectualidade). Sem nos darmos conta, sem querer, e por falta de vigilância, estamos deixando este padrão nocivo crescer na igreja, chegando ao comprometimento do momento solene da exposição da Palavra e tornando os ouvidos de muitos impacientes e destreinados; preguiçosos e lentos quanto à absorção e prática da Palavra.

Chegando ao final, agora na segunda parte do versículo 27, Tiago completa suas instruções acerca do que significa, praticar uma religião aceitável a Deus. Ele acrescenta: “...e não se deixar corromper pelo mundo.”.  Nesta altura da mensagem, temos: fiéis prontos para ouvir; cuidadosos com as palavras e com o temperamento; e, sensíveis às necessidades dos desamparados. É importante notar que a imagem do crente cuja religião é aceitável a Deus vai ficando mais nítida. Resta agora um último cuidado: não deixarmos o mundo que é corrompido nos corromper. O mundo é corrompido e tem o poder para corromper as pessoas. O homem, pelo pecado original, nasce corrompido (caído) e o mundo se encarrega de acumular mais e mais corrupção à sua vida, que nem ao menos, espiritualmente, pode ser chamada de moribunda. O homem que não está em Cristo está irremediavelmente corrompido, até que Deus resolva tirá-lo da corrupção da morte espiritual. Contudo, Tiago fala aos crentes. Fala para pessoas que já tinham sido justificadas pela fé em Cristo, mas que deveriam resistir à corrupção mundana pela obra santificadora do Espírito, tendo a Palavra sempre à frente, para que pudesse ser observada atentamente (ouvida) e praticada. Por isso é que o salmista disse que a Palavra de Deus é lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho (Salmos 119.105). Se você não está em Cristo, você está numa condição espiritual de total corrupção e debaixo da ira de Deus. Em amor lhe garanto, pela Palavra de Deus, que se você não se arrepender profundamente dos pecados e não correr desesperadamente para o Senhor Jesus Cristo, o único Salvador, você irá para o inferno; para o tormento eterno. Se você está nesta condição, você não tem a justificação pela fé em Cristo diante do tribunal celeste, e, por isso, não será, mas já está condenado à destruição eterna. Não se engane! Corra sem reservas e renda-se aos pés de Jesus Cristo. Somente em Cristo há o livramento da ira vindoura que o mundo conhecerá em breve. Aos que já estão verdadeiramente em Cristo Jesus, que já são justificados pela fé nele, o chamado aqui é para santificação contra os poderes mundanos que corrompem não só as obras as tornando maculadas, mas também as intenções dos homens as tornando impuras. Contudo, devemos nos lembrar que pura e imaculada é a religião aceitável a Deus e que isto só é possível pela sua graça, porque, até que Cristo volte, jamais seremos puros e imaculados o suficiente. Sem o perdão de Deus, sem a sua justificação e santificação, é impossível fazer qualquer coisa para Deus de modo que lhe seja aceitável. Para aqueles e aquelas que ainda não estão em Cristo, pela Palavra posso garantir que é para o perdão dos pecados e obediência ao evangelho que Cristo está chamando. Não endureça o seu coração, conheça o seu amor, sua justiça e prossiga em conhecê-lo. Convertidos e fiéis são cuidadosos com as palavras, tem o domínio sobre ira, são sensíveis às necessidades dos mais desamparados e, pela obra santificadora do Espírito, ainda que sofram desgastes, não são corrompidos pelo mundo.

 

Concluindo

Cristo é o Verbo que nos inspira viver uma vida agradável a Deus a despeito das circunstâncias. A ira do homem não produz a justiça de Deus. A Palavra de Deus deve ser observada com atenção e praticada com perseverança. A religião aceitável a Deus, consiste em ter controle sobre as palavras, cuidar das pessoas desamparadas e não se deixar corromper pelo mundo. A justiça de Deus não se manifesta quando, cheios de nós mesmos, não medimos as palavras e agimos de modo destemperado. A nossa sede de justiça deve ser aperfeiçoada pela Palavra, devendo servir para o aumento da nossa fé em Deus e da confiança de que o Senhor sempre agiu, age e agirá em favor do seu povo segundo as suas promessas; o que inclui nos fazer viver em estado de perfeita e eterna justiça e glória. Somente em Cristo temos a libertação da impureza moral e somos protegidos da maldade que prevalece. A Palavra de Deus é o espelho perfeito e, ao contrário do espelho literal, não podemos virar as costas para a Palavra de Deus. Ela deve estar sempre à nossa frente; somente assim podemos observá-la atentamente e praticá-la conforme o Espírito requer. É somente quando as nossas mentes são levadas cativas à Palavra de Deus que podemos experimentar o seu poder libertador. Quanto mais cativa é a mente do homem à Palavra de Deus, mais a mente do homem é liberta de tudo aquilo que o prende longe do Criador. Mantenha a Palavra sempre à frente, seja sensível ao Espírito e controle-se! Não se engane. A igreja não é uma ONG. Embora deva atentar para as necessidades dos mais desamparados, suas prioridades são com as orações e com o ministério da Palavra em todas as suas aplicações. Em se tratando da Palavra de Deus, da forma como deve ser ministrada solenemente nos encontros públicos presenciais ou virtuais, fuja da apelação a propósito das mensagens rápidas e instantâneas. Convertidos e fiéis são cuidadosos com as palavras, tem o domínio sobre ira, são sensíveis às necessidades dos mais desamparados e, pela obra santificadora do Espírito, ainda que sofram desgastes, não são corrompidos pelo mundo.

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