Vivendo para Glória de Cristo

Por: A.L. Cabral


Hebreus 6:4-6

Hebreus 6:4-6 é o texto inicial. Nos deteremos nele no momento certo. Contudo, a reflexão, como veremos a seguir, vai de Hebreus 5:12 até Hebreus 6:12). 

Proponho que, antes de avançar, você faça uma pausa para orar ao Pai celestial, deixando seu agradecimento por ter acesso à sua santa Palavra e pedindo que Ele lhe dê todo o entendimento propício a você neste momento da sua vida. Depois de orar neste sentido, com espírito manso, leia os textos sagrados (destacados pela cor azul) e a reflexão que escrevi com todo amor em Cristo para minha e sua edificação espiritual.

4 Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, 5 experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, 6 e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.


Introdução

Será que temos cuidado adequadamente da nossa visão de mundo (cosmovisão)? O que estamos fazendo coopera para honra ou desonra do Filho de Deus? Quando o Senhor olha para nós, quando Ele olha para mim, quando Ele olha para você, quem Ele vê, um adulto na fé ou uma criança, mesmo com tanto tempo na caminhada? Somente a salvação importa ou juntamente com ela importa o bom testemunho dela decorrente? Estamos dando um bom testemunho de Cristo ao mundo? Por nossa causa, o nome do Senhor Jesus Cristo é honrado ou desonrado? Como anda o nosso empenho em relação à absorção da Palavra de Deus? Como anda a nossa fé, a tão necessária paciência e a nossa prontidão em relação ao serviço cristão? Como está o dom da perseverança em nós? Retrocedemos, estamos estagnados ou continuamos avançando a despeito da falta de forças em termos humanos e das circunstâncias que nos são contrárias?

Esta abordagem procura tratar sobre estas coisas, enquanto passa pelos seguintes pontos: (i) O viver cristão exige aptidão para discernir o bem e o mal; (ii) Não seja achado por Deus como uma criança; (iii) Somente a verdadeira salvação e o bom testemunho dela decorrente importam; (iv) Nunca pare de absorver a Palavra de Deus; e, (v) Conserve a fé, a paciência e prontidão até o fim. 

Ao longo iremos perceber o quanto o amor, a severidade, as promessas e os juízos de Deus cooperam para a nossa edificação espiritual ao passo que nos livra de enganos e retrocessos, nos animando a seguir em frente. Entretanto, algo precisa ser destacado desde já: a forma como respondemos à obra do Espírito em nossa vida irá honrar ou desonrar a pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo, respondamos de modo honroso.


Vamos ao primeiro ponto:


O viver cristão exige aptidão para discernir o bem e o mal 

12 Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido! 13 Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. 14 Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal.

Para um lado “princípios elementares da palavra de Deus” (leite e crianças inexperientes) e para o outro “ensino da justiça” (alimento sólido e adultos experimentados e aptos para discernir o bem e o mal).

É importante notar que o “ensino da justiça” do qual fala o texto não ilumina a doutrina da justificação, que mesmo um não convertido, pelas graças intelectuais, é capaz de aprender. O texto se refere à aptidão para discernir (distinguir; do grego: να διακρινωσι, na diakrinosi) o bem e o mal (v.14), e, como veremos mais adiante, para vivermos uma vida cristã madura (adulta), que glorifica o nosso Senhor Jesus Cristo em tudo, em vez de expô-lo à desonra pública como tem um tremendo potencial para fazê-lo àqueles que até tem conhecimento da Palavra, mas não desfrutam da verdadeira experiência da salvação.

O texto é claro ao dizer que tal aptidão passa pela assimilação dos “princípios elementares da palavra de Deus”, que, pelo “exercício constante” (do original em grego: exercício sensorial; treinamento dos sentidos), se consolidam juntamente com outros saberes (progresso) na vida do crente verdadeiro e sensível às nuances do espirituais, proporcionando-lhe, sob a ação do Espírito, uma vida, como ficará mais claro adiante, de louvor e engrandecimento do nome do nosso Senhor Jesus Cristo.

Que conclusão temos aqui? O Senhor nos exorta a sermos adultos. Ser adulto significa ser apto para distinguir o bem e o mal, tendo como base a comunhão com Deus, a Palavra de Deus, não como Adão foi induzido a fazer, mas partindo do relacionamento com Deus, dos princípios elementares, progredindo ‘para’ e consolidando-se ‘no’ ensino da justiça; ensino que, se exercitado com constância, nos garante, sob o agir do Espírito, o modo de vida que glorifica a Deus. Vale ressaltar que o “exercício constante” do qual fala o texto, não se trata de ativismo em serviços ministeriais, mas da busca constante por aplicações das verdades espirituais ao dia a dia e à altura dos desafios de ordem mundana, de modo que possamos agradar ao nosso Deus em tudo o que fizermos, discernindo muito bem o que procede de Deus e o que dele não procede.

E em termos de aplicação, com o que devemos nos preocupar? (i) Aos afoitos, no que tange ao conhecimento, o apelo é para sensibilidade. Não se trata simplesmente de acumular conhecimentos. Não se trata de seminários no sentido estrito. Trata-se do viver governado pela santa Palavra. Trata-se de viver como uma árvore plantada junto ao ribeiro de águas, cujas folhas não caem, que dá seu fruto na estação própria e tudo quando faz prospera para glória de Deus, ou seja, tudo o que faz coopera para que a glória de Deus seja reconhecida perante os homens. Trata-se de vida reta; transformada pelo poder de Deus. (ii) Aos abatidos e desanimados, o apelo é para o progresso; para o avanço. Como veremos mais adiante há juízo contra a indolência (falta de empenho). Há exortação a propósito dos que estão estagnados. Há severa advertência a partir do exemplo dos que caem (retrocedem). Se você é filho e encontra-se abatido, desanimado, estagnado no tocante à falta de progresso em termos de conhecimento e à vida de bom testemunho na presença do seu Deus e Pai, saiba que Ele quer produzir em você perseverança. O desejo do nosso Deus e Pai é nos conformar à imagem do seu Filho e da parte respondente que nos compete, graciosamente nos exorta a sermos dedicados e empenhados neste sentido. Dedique-se. Empenhe-se. Exercite-se constantemente na presença do teu Deus para que o nome do seu Filho seja glorificado na Terra.

O autor avança escrevendo (Hebreus 6:1-12). Agora temos o segundo ponto para nossa reflexão:


Não seja achado por Deus como uma criança

1 Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de atos que conduzem à morte, da fé em Deus, 2 da instrução a respeito de batismos, da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. 3 Assim faremos, se Deus o permitir.

De modo coerente com a unidade anterior (Hebreus 5:12-14), o autor acrescenta alguns elementos aqui e diz abertamente que o ensino sobre arrependimento, fé, batismos, imposição de mãos, ressurreição e juízo são típicos para não experimentados, que, didaticamente, ele chama de crianças, e, de leite chama todos aqueles ensinos que, até hoje, e infelizmente, são motivos de controvérsias entre cristãos. Contudo, o autor faz uma exortação à maturidade (ensino da justiça, aptidão para discernir entre bem e mal), e, como não seria diferente, deixou espaço para tais ensinamentos junto aos futuros novos convertidos; por isso diz acertadamente: “Assim faremos, se Deus o permitir.” (v.3). O autor queria que os iniciados progredissem, avançassem no sentido da maturidade, enquanto os ensinos elementares tivessem lugar entre os recém-chegados à fé cristã.

O que concluímos aqui? Deixar os ensinos elementares da doutrina de Cristo, significa apreendê-los efetivamente logo no início da caminhada cristã, de tal modo que sirvam de boa base para o ensino da justiça. Significa afastar-se do berço, do seio materno e do jardim de infância espiritual tão logo seja possível e tonar-se progressivamente mais experiente a propósito do que significa ser um verdadeiro cristão na prática (vida piedosa). E não apenas isso, mas também professores capazes de instruir os recém-chegados à fé, sem que para si mesmo tenham evidente e urgente necessidade de repetição para seu próprio aprendizado. Vale destacar que a repetição é importante para adquirirmos melhores condições pedagógicas, mas não é sobre este ponto que o autor se refere, mas sobre a necessidade de repetição para quem já deveria ter aprendido. Pelo estudo do Novo Testamento é correto afirmar que três anos são mais do que suficientes para um crente dedicado apreender as doutrinas essenciais da fé cristã.  

Quanto à aplicação neste ponto?! Deus via o povo de Israel no Antigo Testamento como uma criança; a própria Lei era um guia pedagógico da parte de Deus para conduzir o seu povo à maturidade; à realidade das coisas que estava em Cristo e, no sentido estrito, ao próprio Cristo; sobre estas coisas não falaremos aqui. O que nos importa no momento é não sermos achados por Deus como crianças. Se estamos em Cristo, sermos achados por Deus como crianças após mais ou menos três anos na caminhada significa desonrar a manifestação de Jesus Cristo, sua vinda, vida, obras, morte, ressurreição, ascensão, promessas, juízos e, sobretudo, o que tudo isso significa para o padrão de vida que o exalta neste mundo caído e perdido. Isso significa cometer um erro na dispensação ainda mais grave do erro cometido pelos judeus no passado. Então, se há algo para nos ocuparmos, além de aprender a sã doutrina de modo progressivo e de estar aptos para ensinar aos outros, o foco da nossa ocupação deve ser viver a vida que o Senhor nos deu para sua glória e louvor; e, é isto que distingue crianças e adultos; crentes experimentados e não experientes; crentes cujas vidas louvam a Deus e “crentes” que não o louvam. Não seja achado por Deus como uma criança. Ainda há tempo para dedicação espiritual. Peça ajuda ao Senhor em oração e empenhe-se.

Vamos ao terceiro ponto:


Somente a verdadeira salvação e o bom testemunho dela decorrente importam

Chegou o momento de nos determos no texto introdutório. Não seria demais recomendar que recobre toda a atenção, caso venha estar comprometida, já que esta passagem é muito sensível e, falando em termos humanos, exige atenção redobrada. Vamos ao texto:

4 Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, 5 experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, 6 e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.

Uma grande controvérsia ainda existe na igreja a propósito da palavra “caíram” (v.6). É necessária uma boa compreensão de todo o contexto para entendermos esta passagem de modo edificante; pelo menos, da forma como foi apresentado aos leitores da carta, ou seja, pela ausência de recursos linguísticos sofisticados, nota-se que não houve quaisquer dificuldades na abordagem do assunto, pois o autor sabia que não existiam embaraços da parte dos leitores para o entendimento do conteúdo.

É importante ressaltar também que o pano de fundo da passagem é uma advertência contra a apostasia (deserção) e, falando em termos humanos, o autor foi brilhante.

Sábio e erudito, inspirado, cheio do Espírito, o autor tinha em mente, como os mestres piedosos de hoje também tem, pelo menos 03 (três) grupos de pessoas dentre todos os destinatários, a saber: (i) o grupo dos adultos (crentes maduros, experimentados); (ii) o grupo das crianças, dividido em dois subgrupos (novos convertidos e pessoas estagnadas, ambos não experimentados); e, (iii) o grupo dos caídos. O único grupo que ele não menciona é o composto por aquelas pessoas que não recebem a Palavra, pois, à menor aproximação, logo vem logo o Diabo e arrebata a mesma de seus corações. Se o autor tivesse citado algo a respeito, um paralelo muito estreito com a Parábola do Semeador estaria completo (este paralelo é muito importante aqui). Contudo, o autor foca aqui nas pessoas cujos corações são pedregosos e/ou espinhentos, que não nutrem a fé, que são imediatistas, sem paciência, apegados ao mundo e sem esperança. Em linhas gerais, estas são as pessoas do “grupo dos caídos” aqui em Hebreus. São pessoas que até andam entre os crentes genuínos; pessoas que, em certo grau, foram iluminadas, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, mas não permaneceram porque a santa Palavra não penetrou e frutificou em seus corações, igualmente como ocorre na Parábola do Semeador. Se considerarmos isso, não há razão para tanta discórdia em torno da palavra “caíram” e sobre o que vem logo adiante.

Por que o autor diz que é impossível tais pessoas serem reconduzidas ao arrependimento? Primeiramente é importante destacar que, se fala sobre ser impossível, o autor fala sob o ponto-de-vista humano, pois para Deus não há impossíveis. É importante citar também que, como o autor deixou escrito mais adiante, tais colocações, com fazem com muita propriedade os professores, configuram uma forma de falar (cf. versículo 9). O que, então, o autor falou sobre tal queda e impossibilidade de recondução, senão que para ele e para tantos outros pregadores piedosos é impossível conduzir alguém a Cristo com base em aulas sobre arrependimento, por exemplo — ele citou arrependimento —, e, até mesmo reconduzir tais pessoas para uma posição que elas nunca ocuparam verdadeiramente?! Realmente é algo impossível aos homens. Somente a pregação cristocêntrica, a palavra de salvação em Cristo Jesus, é usada soberanamente por Deus não para apenas ‘começar’, mas fazer ‘avançar’ e para ‘completar’ a sua boa obra na vida daqueles que escolheu salvar. Aos salvos verdadeiramente, Deus lhes garante o dom da perseverança. Estes, ainda que incorram em tropeços e paradas, não caem; seu caminho é como luz da aurora, que, a despeito das dificuldades inerentes, vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Esta ideia vai ficando mais vívida ao longo da reflexão.

O que podemos concluir? Aulas sobre arrependimento, fé, batismos, imposição de mãos, ressurreição, juízo, solas da reforma protestante, TULIP, sobre teologia bíblica, sistemática, não salvam ninguém e não tem poder em si mesmas para fazer algum simpatizante, intelectualmente falando, viver em novidade de vida; e, era por falta desta consistência que Cristo era exposto à desonra pública, como o autor deixou registrado e como acontece até o dia de hoje. No próprio texto está claro que tais ensinamentos eram para os crentes num primeiro momento entenderem melhor sobre as coisas próprias do início da vida cristã, sendo mais adiante provocados a propósito da urgente necessidade de progresso e bom testemunho. 

Em termos de aplicação, temos: as pessoas buscam desesperadamente por equilíbrio e coerência e o fazem das mais variadas maneiras. Os pecadores impenitentes não permanecem na congregação dos justos (justificados; salvos verdadeiramente por Cristo). Saem da congregação dos justos porque nunca fizeram parte dela, embora nela tenham vislumbrado verdades espirituais em certo grau, isso os torna ainda mais indesculpáveis, em comparação com aqueles que só tiveram acesso à revelação geral. Mas, há aqueles que ouvem a santa Palavra, seu conforto, suas promessas, suas advertências, suas exortações, seus juízos, e, mesmo sob uma nuvem de ignorância, alcançam, pela graça de Deus, a convicção de que a solução para suas incoerências e dramas não consiste em recuar, mas em avançar no sentido daquele que o exorta com soberano amor. Somente a verdadeira salvação importa e o bom testemunho que dela é decorrente. Até para aqueles que não tem certeza da sua própria salvação, a resposta não está no voltar atrás, mas no adiante, na esperança da manifestação da infinita misericórdia do Pai Todo-Poderoso. Por isso o autor da carta é inspirado a falar de um modo que fique clara a advertência e exorta a todos no sentido do progresso, tal como o semeador que saiu a semear e tendo a semente tido contato com vários tipos de terreno. 

Neste mesmo sentido, vamos ao quarto ponto:  


Nunca pare de absorver a Palavra de Deus

O autor dá sequência aos argumentos, mantendo, consciente ou não, um paralelo com parábola já citada (Semeador), sendo que agora fazendo uma ligação com a boa terra; aquela que recebendo a semente dá fruto até à proporção de cem por um.

Vejamos:

7 Pois a terra, que absorve a chuva que cai frequentemente, e dá colheita proveitosa àqueles que a cultivam, recebe a bênção de Deus. 8 Mas a terra que produz espinhos e ervas daninhas, é inútil e logo será amaldiçoada. Seu fim é ser queimada.

Em termos práticos, da parte que compete aos homens, a palavra em destaque aqui é “absorve”; absorver. A chuva cai frequentemente; uma referência poética à graça, e sob certo espectro, às graças que do alto não param de cair da parte do bom Deus. A boa semente não vem deste mundo, o evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo não tem origem humana, toda boa dádiva, todo dom perfeito vem do alto da parte do nosso Pai generoso. Dádivas que não param de cair, logo não deveríamos parar de absorver. Foi isto que os exortados da passagem fizeram: receberam os princípios elementares da doutrina de Cristo e pela falta do exercício constante secaram e não produziram outra coisa se não espinhos e ervas daninhas, incapacidade de distinguir bem e mal, e, por conseguinte, uma vida que desonra o Filho de Deus e esvazia junto aos de fora o significado do seu sacrifício vicário. Como consta no texto, o juízo sobre tal escassez é fogo e maldição.

Que conclusão temos aqui? O Espírito Santo é aquele que cultiva e o faz por meio da Palavra de Deus pregada por homens piedosos. Estes homens, agricultores humanos, assim como o agricultor espiritual, o próprio Espírito, recebem tanto a colheita proveitosa, quanto se deparam com espinhos e ervas daninhas. Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos. Pelo conselho divino (secreto), há vasos para fins honrosos e outros para desonrosos. Isto está reservado a Deus, não tendo permissão o homem para questioná-lo a respeito. A benção de Deus não é só a chuva que cai frequentemente, a igreja de Cristo ou a ação do Espírito nos corações dos crentes, mas também os próprios frutos da colheita. A maior benção da nossa vida enquanto estivermos por aqui não é a salvação no sentido estrito e isolado com alguns pensam, mas a salvação e os frutos que dela são decorrentes (testemunho), que são os sinais cuja importância não é outra se não a de servir à Palavra para salvação e edificação espiritual de tantos outros e, sobretudo, para que o santo nome de Jesus seja honrado e engrandecido por toda a Terra.

Com o que devemos nos preocupar? Com a absorção da Palavra e com bom testemunho de Cristo em grau máximo. Isto só é possível pela absorção contínua da Palavra de Deus. Muitos andam preocupados com sinais milagrosos; Deus é Deus e pode operar o sinal que quiser e conforme lhe aprouver. Contudo, se esquecem que ao dar testemunho de João Batista, João, o evangelista, escreveu a seu respeito dizendo: “Embora João nunca tenha realizado um sinal miraculoso, tudo o que ele falou a respeito deste homem [Jesus] era verdade” (João 10:41).  O que confirmou que João era um profeta da parte de Deus foi a vida e as obras de Jesus. Somente quando as pessoas percebem a vida de Cristo em nós e as suas obras por meio do Espírito e através de nós é que a Palavra e o nome do Senhor tem um enorme potencial de serem honrados. Antes, os sinais milagrosos tinham a função de confirmar que Cristo era (é) Deus e que sua Palavra era (é) digna de toda aceitação. Hoje, quem assume esta função é o testemunho da igreja; longe de ser somente o que a igreja fala a respeito de Cristo, mas do quanto os de fora tem vislumbres ‘da’ e podem ver com mais acuidade por iluminação do Espírito a vida de Cristo ‘na’ existência de todos quantos dela fazem parte (são partes). Foi pela vida de Cristo que João foi reputado como fiel, assim como será a vida de Cristo em nós a razão de toda a honra e do todo o louvor que lhes são devidos.  

Vamos quinto e último ponto:


Conserve a fé, a paciência e prontidão até o fim

9 Amados, mesmo falando dessa forma, estamos convictos de coisas melhores em relação a vocês, coisas próprias da salvação. 10 Deus não é injusto; ele não se esquecerá do trabalho de vocês e do amor que demonstraram por ele, pois ajudaram os santos e continuam a ajudá-los. 11 Queremos que cada um de vocês mostre essa mesma prontidão até o fim, para que tenham a plena certeza da esperança, 12 de modo que vocês não se tornem negligentes, mas imitem aqueles que, por meio da fé e da paciência, recebem a herança prometida.

Como mencionado, o autor tem grupos à sua frente. É importante notar o carinho com o qual se dirige aos estagnados — “Amados” (v.9) — mesmo em meio uma exposição completa envolvendo promessas e juízo. Nisto também, como em tudo, há uma grande diferença dos padrões mundanos; a igreja de Cristo ama os seres humanos, e, porque os ama, instrui os homens de acordo com todo conselho de Deus, não se limitando a dizer aos homens, somente o que esperam ouvir, mesmo correndo riscos de perigos, assim como de perder a liberdade e a própria vida. 

O foco da passagem não está nos caídos; aliás, o que a respeito deles foi citado foi para advertência aos estagnados. O foco também não está nos adultos; citados como exemplos de fé e paciência. O objeto da atenção do autor é para crianças; àqueles que a despeito do tempo na caminhada, não haviam demonstrado progresso. A Palavra de Deus chegou àquelas pessoas para produzir a perseverança da qual necessitavam a propósito da herança prometida; serem conformados dia após dia — “recebem” (v.12) — à imagem do nosso Senhor Jesus Cristo. Somente esta imagem pode glorificar o nome do Senhor na Terra, pois somente Ele é a luz para este mundo de trevas. O nome dele não pode ser honrado, senão pelo brilho da sua própria vida e muitos homens e mulheres dentre todos que um dia o Diabo destruiu, e vem destruindo ao longo dos séculos, estão sendo transformados soberanamente pelo poder de Deus e para glória do seu Filho. Por isso, a despeito de todas as severas e reais advertências e juízos, o autor lhes fala de modo amável — “Amados” (v.9) —, demonstrando a convicção de que naquele grupo de pessoas havia os eleitos de Deus e que para os quais não apenas ‘a’ mas ‘as’ “coisas próprias da salvação” lhes estavam reservadas. Contudo, cada qual iria ou não experimentar tais graças, sendo, sob o ponto-de-vista humano, o abandono ou o progresso os sinais decorrentes da pregação da Palavra. Por isso, da posição que se encontravam, ao adverti-los, o autor, como um professor que quer o bem para os seus, trouxe luz ao estado de coisas, fazendo-os enxergar com mais acuidade o que acontece com aqueles que recuam e com aqueles avançam. Com muito mais fulgor — pois a propósito dos que caíram limitou-se dizer sobre a impossibilidade humana e que aulas sobre teologia não podem resolvem o problema, mas somente o subentendido novo nascimento como uma obra exclusiva do próprio Deus — o autor lhes escreveu: “Deus não é injusto; ele não se esquecerá do trabalho de vocês e do amor que demonstraram por ele, pois ajudaram os santos e continuam a ajudá-los. Queremos que cada um de vocês mostre essa mesma prontidão até o fim”. Com isso o autor deixa claro, a despeito do momento de estagnação que estavam vivendo, que Deus é justo, que não se esqueceria do amor demonstrado pelo trabalho de ajuda aos santos, que iria recompensá-los com as “coisas próprias da salvação”, bastando tão somente que tivessem fé e paciência — algo que estavam precisando aprimorar —, não recuassem, mas mantivessem prontidão em relação ao amor e ao serviço cristão até o fim. Para isto a Palavra de Deus chegou àquelas pessoas; para despertar nelas a perseverança da qual precisavam para seguir em frente.

O que podemos concluir? O alvo da nossa fé é Cristo. Se não for pela vida de Cristo em nós será infantil a nossa fé. Se não for para estarmos crucificados com Cristo, mortos para o pecado e, em Cristo, vivos para Deus, será vã a nossa fé. Se não for para honrar o nome do nosso Senhor neste mundo caído será infantil e vã a nossa fé. 

Com o que ficamos em termos de aplicação neste último ponto? O mundo em que vivemos está piorando a cada dia e vai continuar piorando. Mas, este é o mundo em que vivemos, mas não o mundo para o qual vivemos. É o mundo para o qual falamos, mas não o mundo do qual falamos. Os homens deste mundo fazem de tudo para que não lhes escape tudo quanto tem empenhado esforço brutal para conservar, mas que inevitavelmente escoa como água entre os dedos ao longo da sua breve existência. Aquele que está verdadeiramente em Cristo está morto para este mundo, e, vivo para Deus, tem uma esperança muito maior, pois o mundo (Reino) no qual vai entrar ‘em’ e ‘na’ plenitude ele já vê com os olhos da fé que Deus lhe deu. Conserve a fé, a paciência e prontidão até o fim! Até lá, e esperamos que seja em breve (paciência), como um adulto na fé, viva (prontidão) para que o nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo seja admiravelmente glorificado na terra dos filhos de Adão.   


Concluindo

O viver cristão exige aptidão para discernir o bem e o mal. O Senhor nos exorta a sermos adultos. Ser adulto significa ser apto para distinguir o bem e o mal, tendo como base a comunhão com Deus, a Palavra de Deus, não como Adão foi induzido a fazer, mas partindo do relacionamento com Deus, dos princípios elementares, progredindo ‘para’ e consolidando-se ‘no’ ensino da justiça; ensino que, se exercitado com constância, nos garante, sob o agir do Espírito, o modo de vida que glorifica a Deus. O desejo do nosso Deus e Pai é nos conformar à imagem do seu Filho e da parte respondente que nos compete, graciosamente nos exorta a sermos dedicados e empenhados neste sentido. Dedique-se. Empenhe-se. Exercite-se constantemente na presença do teu Deus para que o nome do seu Filho seja glorificado na Terra.

Não seja achado por Deus como uma criança. Pelo estudo do Novo Testamento é correto afirmar que três anos são mais do que suficientes para um crente dedicado apreender as doutrinas essenciais da fé cristã. Não seja achado por Deus como uma criança. Ainda há tempo para dedicação espiritual. Peça ajuda ao Senhor em oração e empenhe-se.

Somente a verdadeira salvação e o bom testemunho dela decorrente importam. Aulas sobre arrependimento, fé, batismos, imposição de mãos, ressurreição, juízo, solas da reforma protestante, TULIP, sobre teologia bíblica, sistemática, não salvam ninguém e não tem poder em si mesmas para fazer algum simpatizante, intelectualmente falando, viver em novidade de vida. Somente a verdadeira salvação importa e o bom testemunho que dela é decorrente. Até para aqueles que não tem certeza da sua própria salvação, a resposta não está no voltar atrás, mas no adiante, na esperança da manifestação da infinita misericórdia do Pai Todo-Poderoso.

Nunca pare de absorver a Palavra de Deus. A maior benção da nossa vida enquanto estivermos por aqui não é a salvação no sentido estrito e isolado com alguns pensam, mas a salvação e os frutos que dela são decorrentes (testemunho), que são os sinais cuja importância não é outra se não a de servir à Palavra para salvação e edificação espiritual de tantos outros e, sobretudo, para que o santo nome de Jesus seja honrado e engrandecido. Foi pela vida de Cristo que João foi reputado como fiel, assim como será a vida de Cristo em nós a razão de toda a honra e do todo o louvor que lhes são devidos.

Conserve a fé, a paciência e prontidão até o fim. Se não for para honrar o nome do nosso Senhor neste mundo caído será infantil e vã a nossa fé. Conserve a fé, a paciência e prontidão até o fim! Até lá, e esperamos que seja em breve (paciência), como um adulto na fé, viva (prontidão) para que o nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo seja admiravelmente glorificado na terra dos filhos de Adão.

Agradeça ao Senhor Deus por sua Palavra, o próprio Cristo, e, continue orando para que, pelo poder do Santo Espírito, ela seja a cada dia mais operosa e eficaz em sua vida. Viva para que o nome do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo seja, em tudo, honrado e glorificado em sua existência. Amém. 

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